A CADMUS reedita o primeiro livro de Sandro Nóbrega, O ESTRANHO CASO DA FLUTUAÇÃO, que conta com o prefácio de Violante Saramago Matos. A obra é uma divertida alegoria sobre os nossos comportamentos, os nossos medos e as nossas fragilidades em relação ao desconhecido. Escrita durante o confinamento resultante da pandemia de COVID-19, o mote para o desenvolvimento da narrativa vai muito para além daquele contexto, como explica o autor: “Por isso, podendo dizer que a epidemia COVID-19 foi o motor que me levou a escrever a obra, a verdade é que considero que o enquadramento crítico pode ser alargado a diversos aspetos da nossa vida coletiva”.
Este livro foi a sua estreia na ficção. Como vê esta reedição e o que espera dela?
Fico muito sensibilizado pelo interesse da editora na obra e pelo facto de considerarem ter valor literário para uma nova publicação sob a sua chancela. Diverti-me a escrevê-la; espero que o leitor também o consiga fazer na leitura. Também espero que quem a venha a ler perceba que, não obstante o enredo ser específico, abre perspectivas de reflexão sobre o que somos enquanto coletivo, sobre os nossos medos e a forma como nos podemos deixar condicionar (ou até manipular) por eles.
O facto de a obra só ter duas personagens nomeadas reforça o aspeto metafórico de todo o enredo. Foi sempre este o seu propósito?
Sim, o propósito central foi precisamente esse. A escolha dos nomes dessas duas personagens também obedece a essa lógica: são nomes próprios frequentes, pelo que pelo que poderia ter acontecido a qualquer pessoa.
A crítica social, de costumes e mesmo política teve a ver só com a COVID-19 ou pretendeu atingir outros aspetos?
A ideia original para a história surgiu-me há muito tempo, num sonho. Acordei e as imagens iniciais estavam tão vívidas que decidi tomar apontamentos, que guardei numa gaveta durante anos. Aquando dos confinamentos a que fomos obrigados por causa da COVID-19, com algum tempo em casa, decidi pegar na ideia e começar a escrever. Foi um impulso. As notícias que me entravam em casa diariamente, pela comunicação social, foram uma inspiração. Por isso, podendo dizer que a epidemia COVID-19 foi o motor que me levou a escrever a obra, a verdade é que considero que o enquadramento crítico pode ser alargado a diversos aspetos da nossa vida coletiva. Para começar, a ideia da flutuação: com o ritmo de vida que temos, torna-se difícil debruçarmo-nos com profundidade sobre temas importantes, pelo que “flutuamos” sobre perceções da espuma dos dias, o que pode levar a assumirmos opiniões pouco fundamentadas. Isso pode ser perigoso, como bem vemos, de forma cada vez mais evidente. Também quis abordar a forma como há aproveitamentos em relação a situações de fragilidade: há sempre alguém que tenta conseguir proveitos com a aflição dos outros. Outro apontamento prende-se com as “vaidades” a que, por vezes, nos rendemos: há sempre alguém que quer aparecer, que quer mostrar que faz mais e melhor do que os outros, mesmo que isso não tenha suporte factual ou venha a prejudicar possíveis soluções para determinados problemas. O que importa é aparecer. Quis dar, ainda, outras pistas reflexivas, dadas pelo narrador, ele próprio um “flutuador” sobre os acontecimentos que vê, mas isso já deixo para o leitor.
Como ator e encenador, acha que este texto tem potencial para ser levado à cena?
A pergunta é de difícil resposta. O Teatro mudou muito, e ainda bem; as linguagens teatrais, atualmente, são diversas, muitas inovadoras e inteligentes. A história terá potencial para ser contada em palco. Agora, há que ter em conta especificidades técnicas que teriam de ser resolvidas de forma criativa, como seja a situação evidente da flutuação. Nunca se sabe…
Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira
Com fotografia de Pedro Pessoa.