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“Uma viagem irrecusável pela ilha da Madeira rural, serrana, em perfeita harmonia com a natureza”

“Uma viagem irrecusável pela ilha da Madeira rural, serrana, em perfeita harmonia com a natureza”

Sete anos desde a sua primeira edição, que também traduzida para Inglês, a Imprensa Académica apresenta LEVADAS DA MADEIRA enriquecido com mais excertos e num novo formato de capa dura.
Imagem da obra LEVADAS DA MADEIRA: UMA ANTOLOGIA LITERÁRIA, numa edição da IMPRENSA ACADÉMICA, uma editora da ACADÉMICA DA MADEIRA.

LEVADAS DA MADEIRA. UMA ANTOLOGIA LITERÁRIA, que conta com fotografias de Francisco Correia e posfácio de Nelson Veríssimo, reúne excertos literários de vários autores nacionais e estrangeiros alusivos às levadas da nossa Ilha, recolhidos e organizados por Thierry Proença dos Santos, investigador e antigo professor da Universidade da Madeira.

Passaram-se sete anos desde a primeira edição de Levadas da Madeira. Uma antologia literária. Como justifica esta reedição?

T.P.S.: A primeira edição esgotou-se, quer na sua versão original, em português, quer na sua versão inglesa. Tratando-se de um belo livro-objeto, é natural que continue a ter procura. As magníficas fotografias de Francisco Correia têm um forte apelo visual e convidam a uma viagem irrecusável pela ilha da Madeira rural, serrana, em perfeita harmonia com a natureza. É a Madeira longe dos centros urbanos, entre o discreto e o secreto, com paisagens deslumbrantes (antes do incêndio medonho deste ano…), caracterizadas por levadas, poios, furados, o mar de nuvens, a floresta Laurissilva, picos recortados, palheiros, o céu estrelado, uma aurora resplandecente e um homem do campo com barrete de orelhas.

Associadas às imagens, estão as palavras de escritores e poetas que descrevem a importância das levadas no meio madeirense. Das necessidades agrícolas de água à atual oferta turística, passando pelo setor energético, as levadas fazem parte da paisagem madeirense e, como tal, determinam várias atividades humanas, assim como a organização e gestão do território. Entre estruturas edificadas e práticas diversas (regar, lavar, partilhar, brincar, caminhar…), estórias e memórias, tramas e dramas, as levadas constituem-se como património cultural e fonte abundante do imaginário madeirense.

Esse imaginário fala, à boca pequena, de bruxas e musas, perigos e prazeres, medos e sonhos, sons e visões. A literatura dá-lhe sentido e força em letra de forma. A antologia apresenta uma mostra de discursos sobre esse tema, pelo viés de um olhar atento, empático e original. Esta segunda edição permitiu atualizar e completar a antologia.

Na altura da 1.ª edição, a esperança era grande na candidatura das levadas a Património Mundial da UNESCO. Acha que esta obra pode contribuir de alguma forma para aquela candidatura?

T.P.S.: Ainda que modestamente, esta antologia literária e fotográfica não deixa de sensibilizar para a temática em apreço e vem, de algum modo, reforçar a pertinência da candidatura. Julgo que este levantamento de textos/excertos literários pode ser encarado como um elemento de valor não despiciendo no que diz respeito ao património cultural imaterial criado a partir das vivências da população em torno das levadas.

Com efeito, a antologia não só regista saberes e práticas ancestrais, ofícios extintos ou em extinção, conceções do mundo e da vida, exemplos de literatura tradicional e regionalismos linguísticos, como também prova a sua importância na cultura e identidade madeirense, visto tratar-se de uma fonte de inspiração para literatos e artistas, quer com raízes na região, quer oriundos de outras geografias.

Independentemente das razões mais ou menos claras que culminaram na retirada da candidatura, os textos que compõem a obra, tal como a literatura, são eternos. Serão as levadas, e a cada vez mais diminuta e ameaçada Laurissilva, eternas também?

T.P.S.: Se olharmos à nossa volta (além da nossa rua, através da televisão e da internet), apercebemo-nos que o mundo atual vive cada vez mais ao sabor de crises globais: emergência climática, cataclismos, poluição, guerras, pandemias, deslocamentos humanos, a erosão democrática em países que reputávamos como democracias consolidadas e exemplares, conflitos sociais, crise económica, notícias falsas (‘fake news’) com o intuito de manipular a opinião pública, a crescente “apatia” da consciência crítica por força do uso excessivo do telemóvel e das redes sociais, o regresso ao obscurantismo… tudo isto tem vindo à tona com uma intensidade avassaladora e uma velocidade vertiginosa. Viver nas próximas décadas neste planeta não será como viver num mar de rosas! Além disso, a História ensina que, ciclicamente, passamos de períodos de expansão, liberdade e paz para períodos de declínio, restrição e violência.

Para responder mais diretamente à pergunta: não podemos dar nada como garantido. Nenhuma infraestrutura está livre da destruição, nenhum ecossistema é permanente: no caso das levadas e da floresta Laurissilva da Madeira, bastaria lembrar o exemplo recente do grande incêndio no coração da ilha para perceber quão frágeis são essas áreas do património da Região Autónoma da Madeira.

Imagine-se os seguintes cenários: enxurradas devastadoras, um forte abalo sísmico, plantas invasoras descontroladas, falta de meios financeiros para a preservação e manutenção das mesmas. Qualquer um deles pode deitar tudo a perder. Naturalmente, se houver, a montante, uma forte consciencialização por parte dos cidadãos e do poder político dos problemas e das necessidades para a sua valorização e sustentabilidade e força de vontade para antecipar e minimizar o impacto negativo de cenários imprevisíveis e/ou desfavoráveis, seremos então dignos dessa notável herança cultural que são as levadas e dessa paisagem excecional chamada Laurissilva.

Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.

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