Dar a conhecer o Currículo numa reflexão a duas

Jesus Maria Sousa e Liliana Rodrigues apresentam uma obra para os estudantes que "procura organizar algumas reflexões, enquanto especialistas em Currículo, ao longo de mais de duas décadas de estudo, debate, investigação e orientação de trabalhos académicos.»
Jesus Maria Sousa e Liliana Rodrigues, autoras de TEORIAS CRÍTICAS E PÓS-CRÍTICAS DO CURRÍCULO: UMA REFLEXÃO A DUAS, com Carlos Nogueira Fino, em março de 2023.

TEORIAS CRÍTICAS E PÓS-CRÍTICAS DO CURRÍCULO: UMA REFLEXÃO A DUAS é o título do novo trabalho apresentando por Jesus Maria Sousa e Liliana Rodrigues, investigadoras na área das Ciências da Educação e docentes da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da Madeira.

Estudos correlacionais e causalidade

Fortin (2003), afirma que “…contrariamente aos estudos puramente descritivos, nos quais a descoberta e a descrição são o objetivo principal, os estudos de tipo correlacional têm por objetivo examinar as relações entre variáveis. Os estudos deste tipo pressupõem que o fenómeno já foi identificado e descrito (p. 173).” Portanto, os

A obra, além do valor científico, apresenta-se como um recurso didádico para estudantes de vários ciclos de estudos. A apresentação foi em março, no histórico Colégio dos Jesuítas do Funchal, feita por Carlos Nogueira Fino, Professor Catedrático Emérito da UMa.

As autoras falaram-nos um pouco deste trabalho.

Embora a introdução do vosso livro fale sobre a vossa motivação e objetivos, gostaríamos que nos falassem um pouco mais sobre o que vos levou a escrever esta obra dedicada especialmente aos vossos estudantes?

JMS: Se olharmos para o panorama das estruturas curriculares dos cursos de educação e formação de professores, no nosso país, não encontramos disciplinas totalmente vocacionadas para abordar uma perspetiva crítica sobre a educação escolarizada. E é neste particular que a Universidade da Madeira se diferencia das demais instituições formadoras.

O que é certo é que desde cedo, o aprofundamento das teorias críticas passaram a fazer parte do elenco dos nossos mestrados de investigação, como disciplina (correntes críticas de currículo), culminando com as teorias críticas e pós-críticas, ao nível do doutoramento. Esta obra é especialmente dedicada aos nossos estudantes, pois foi a pensar neles que estas disciplinas foram sendo construídas.

LR: A ideia deste livro passou por diversas fases e por uma pandemia que nos atrasou a todos. Num primeiro momento a proposta era criar uma sebenta de estudo para os estudantes. Mas as sebentas já existiam de alguma forma, porque os nossos estudantes podem usufruir do material das aulas que está sistematizado e organizado em pastas de trabalho, agora digitalmente. Então seguiu-se a vontade de cruzar duas áreas do currículo que são tratadas a nível de mestrado, Correntes Críticas do Currículo, e no doutoramento, as Teorias Pós-Críticas do Currículo. Conceptualmente são áreas distintas que, longe de se excluírem, se complementam.

Por hábito, escrevo as aulas e preparo-as com materiais diversos, desde textos a sínteses por PowerPoint. Esse material foi potencializado e serviu de guia ao pensamento que se quer esclarecido e crítico. Todo o livro é marcado por uma postura ideológica que é assumida sem grandes medos.

Fugindo às visões tradicionais da educação e do currículo, este trabalho discute e desconstrói as formas de representação não só de cada um, mas de todos nós enquanto identidade coletiva. Discute o Eu e o Outro. Aqueles que assumimos como “identidades especiais”, pela razão simples de serem diferentes de nós. E isso é significar pela representação. É, em última análise, incluir ou excluir.

Os vossos percursos profissionais estão separados por uma diferença geracional. Gostaríamos que nos falassem um pouco deste encontro que produziu esta reflexão a duas?

JMS: Dei aulas à Professora Liliana no mestrado em Supervisão Pedagógica. E não sei se foi ela que me escolheu, ou se fui eu a escolhê-la, para a orientação do seu doutoramento. Começou aí a nascer uma grande proximidade em termos de visão crítica do mundo e naturalmente da escola, tal como ela em alguns casos tem funcionado.

A Professora Liliana é intelectualmente estimulante e instigadora de avanços no campo da educação. A relação Professora-Estudante enveredou com toda a naturalidade para uma relação inter pares.

LR: São duas décadas de trabalho com a Professora Jesus Maria. Trabalho de profunda reflexão. De acordos e desacordos. De pensamento que só o é porque para pensar são precisos dois. Neste caso, duas. Tive a sorte de ter a Professora Jesus Maria como minha orientadora científica de doutoramento e que me deu autonomia suficiente para perceber que o trabalho de investigação exige muito de cada um de nós. Mas também daquele que orienta. Esse diálogo científico manteve-se ao longo dos anos e, na verdade, nunca deixei de a ter como Mestre, no mais profundo sentido que esta palavra tem.

Temos formações iniciais muito distintas, mas convergimos na investigação em educação, na formação intermédia e avançada. Repare que a nossa reflexão não se cinge aos momentos de criação de textos e de apresentação de trabalhos de investigação. No nosso quotidiano damos por nós a refletir, a discutir e a tentar perceber como podemos dar o nosso contributo à comunidade com o nosso conhecimento. Ambas caminhamos muito seguras nessa intervenção: além de nos unir um profundo amor ao conhecimento, temos uma amizade inabalável (coisa que é muito rara na academia contemporânea).

O Centro de Investigação em Educação da Universidade da Madeira (CIE-UMa) tem um percurso já longo de formação e investigação. Que desafios se colocam aos novos curriculistas e cientistas da educação e como esta obra os pode ajudar?

JMS: O CIE-UMa está a fazer vinte anos, tendo sobrevivido como unidade de I&D financiada pela FCT, o que não tem sido fácil. São pouquíssimos os centros de investigação da UMa. Já passámos por momentos difíceis, mas temos conseguido adaptarmo-nos às novas exigências de avaliação.

Esta obra pode ajudar, sim. Toda a gente fala de inovação, agora. Mas a inovação pressupõe uma análise crítica que exija a mudança. Caso contrário, porquê inovar? Porquê mudar?

LR: Penso que este é um contributo que serve de forma clara aos estudantes de formação avançada, em especial, e à comunidade, em geral.

Discutir o currículo é ir além dos programas espartilhados e da própria escola enquanto lugar de execução do currículo formal. O Centro de Investigação em Educação percebeu isso desde a sua origem.

Cada vez mais, o currículo deve ser discutido trazendo para o terreno a avaliação da desigualdade estrutural do ponto de vista social, económico, cultural, etc., que é, muitas vezes, emanada do poder que não se vê, mas que está sempre presente.

A dimensão política do currículo implica uma capacidade de análise teórica que se espelha na vida de todos os dias, ora de forma oculta, ora de forma tão naturalmente explícita que passa despercebida. Onde ele menos se vê, o currículo, é onde mais o temos de procurar. Estamos no âmbito da ideologia.

Outro segmento de trabalho científico, nesta área, será a questão das forças simbólicas como forças de subversão e das próprias funções sociais do currículo, que fazem dele uma construção social. Isso é dar sentido e é significar pelo poder. É fazer do Saber uma forma de poder. Melhor, saber é Poder.

Afinal… O que é o currículo? Sabemos que a resposta a esta pergunta é complexa e longa, mas parece que circulam muitas “ideias feitas” sobre as quais as pessoas pouco refletem. Poderia a vossa resposta ser um convite à leitura da obra?

JMS: O currículo é o cerne da educação formal. É o conhecimento reconhecido como socialmente válido. A questão levanta-se, no entanto, sobre quem decide o que é socialmente válido… Há definições mais amplas de currículo como sendo tudo o que se aprende na escola, quer de forma organizada, quer não organizada. E as teorias críticas e pós-críticas do currículo ajudam-nos a refletir e a questionar sobre o que se ensina. Já não há verdades absolutas resultantes de leituras simplistas e dogmáticas.

LR: O senso comum é o ato de afirmar essas ideias feitas e é esse o seu maior perigo: ser incapaz de ver o todo de forma crítica. A resistência do senso comum é maior que todos os saberes do mundo. E muitas vezes, a capacidade plástica do homem não lhe retira o carácter de sujeito que se sujeita às relações de poder e de saber. Num mundo em rede, em que tudo se faz e tudo se diz, não é preciso muito para se ser um labrego de beca ou um erudito esfarrapado. É tudo uma questão de tique e de feitio.

Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.