Em torno das palavras «monumento» e «documento»

 

A função do monumento é apenas fazer lembrar, já o documento serve para fazer lembrar e ainda para ensinar. O monumento lembra, já o documento lembra e ensina!

O recente derrube de estátuas de figuras conotadas de algum modo com a escravatura, tanto na América como na Europa, vem suscitando várias reflexões, das quais me proponho desenvolver uma, talvez inusitada.

Sabemos que as mesmas constituíam monumentos, mas a linha de pensamento que me proponho seguir é outra e diz respeito à própria palavra «monumento». Tem origem no latim monumentum, termo que designa tudo aquilo que recorda alguma coisa: edifício, templo, estátua, pórtico e ainda túmulo (o monumentum sepulcri). No plural, monumenta, designa igualmente os documentos escritos. Esta palavra é formada, por derivação, com o radical do verbo monere («fazer lembrar») e o sufixo de instrumento –mentum (cf. ornamentum, alimentum, etc.).

Esta palavra mantinha, em Roma, uma estreita conexão com o culto dos mortos. Os antigos Romanos tinham um cuidado extremo com tudo o que se relacionava com o universo sagrado e tinham grande reverência (e temor!) pelos que já tinham deixado o mundo dos vivos. Chamavam-lhes dii manes, «os deuses bons» ou «os manes» (as almas dos mortos e, em especial, as dos pais). Os funerais consistiam num cortejo, inicialmente nocturno, no qual o corpo do defunto era conduzido à pira funerária e cremado. Tal ocorria fora do pomoerium, isto é, fora do espaço sagrado definido pelas muralhas de Roma. Os ossos eram depois lavados e colocados numa sepultura.

Ainda encontramos traços da vinculação da palavra «monumento» ao universo funerário em português, quando, por exemplo, Fernão Lopes, no último capítulo da Crónica de D. Pedro I, escreve, a propósito das exéquias de D. Inês de Castro:

E seemdo nembrado de homrrar seus ossos, pois lhe ja mais fazer nom podia, mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado […]; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça […] Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si […].

O termo sepucrum («sepulcro») relaciona-se com sepelire («sepultar») e designa a sepultura sobre a qual era depois erguido o que principiou por ser um montículo de terra e pedras, cuja função era fazer recordar que, ali, estavam sepultados os ossos de determinado indivíduo. Esse montículo era o tumulus («túmulo»), palavra relacionada etimologicamente com o verbo tumere («estar intumescido») ou com o vocábulo tumor («intumescência»). Tal montículo acabou por evoluir, vindo a transformar-se num verdadeiro monumento funerário.

Já a palavra «documento» tem origem em documentum, termo que designa tudo aquilo que serve de modelo, exemplo ou lição, enfim, tudo o que serve para ensinar. Este vocábulo é formado com o mesmo sufixo –mentum, o qual surge aplicado ao radical do verbo docere («ensinar»).

Uma reflexão final prende-se com valor semântico destas palavras, uma vez que o de documentum é mais amplo do que o de monumentum: a função do monumento é apenas fazer lembrar, já o documento serve para fazer lembrar e ainda para ensinar. O monumento lembra, já o documento lembra e ensina!

Telmo Corujo dos Reis
Professor da UMa

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