Para que serve a História da Arquitectura

Alguém se lembra que, no seu plano de 1915, Ventura Terra planeava construir uma avenida sobre a ribeira de João Gomes e um casino no cais da Pontinha?

Para que serve a história da Arquitectura? Costuma dizer-se que aqueles que não aprendem com o passado estão condenados a repeti-lo. Um cidadão bem informado sobre a história da cidade onde vive e a da sua Arquitectura é, certamente, capaz de tomar melhores decisões sobre ela do que um ignorante. Vem isto a propósito das exposições que a Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos levou a cabo este ano na sua sede: a primeira sobre o Plano Director de Rafael Botelho (1969-72) e a segunda comemorando os 100 anos do Plano de Melhoramento de Ventura Terra (1915). Ambas deram a conhecer matéria relevante sobre o Funchal do século XX: os planos metidos na gaveta, os que viram a luz do dia, as boas e as más decisões tomadas pelos nossos pais, avós e bisavós. Quem se atreveria a dizer que nada há a aprender com as gerações que nos precederam?

Alguém se lembra que, no seu plano de 1915, Ventura Terra planeava construir uma avenida sobre a ribeira de João Gomes e um casino no cais da Pontinha? E que, em 1959, o urbanista Faria da Costa propunha a demolição integral do bairro de Santa Maria do Calhau substituindo-o por blocos habitacionais que atingiam os 10 pisos de altura? Estas e outras ideias mirabolantes fazem hoje parte da história do Funchal e constituem um capital de conhecimento que importa não esquecer. Outras houve que nos fazem lamentar o facto de nunca terem sido realizadas. É o caso, por exemplo, do arranjo de invulgar qualidade que o paisagista Francisco Caldeira Cabral apresentou, em 1942, para a Avenida do Mar, entre o Largo dos Varadouros e o Forte de São Tiago: uma ampla faixa arborizada corria ao longo da praia; o antigo Campo Almirante Reis transformava-se num vasto jardim que incluía o Arsenal (onde hoje está instalado um hotel de Arquitectura medíocre); e, visualmente, todo este corredor verde à beira-mar culminava no magnífico perfil dos baluartes de São Tiago. Que bela seria hoje a Avenida do Mar se este projecto se tivesse cumprido!

Infelizmente, a avenida idealizada por Ventura Terra em 1915, em vez da praia, como acontece nas suas congéneres europeias – o Paseo de la Concha em San Sebastian, ou as Promenades des Anglais em Nice e a de la Croisette em Cannes – foi vendo nascer a seus pés outras amenidades: uma marina, o barco dos Beatles, uma E.T.A.R, um balão e, por fim, em 2010, o produto de uma aluvião. A aluvião foi, é certo, uma tragédia. Poderia, todavia, ter-se transformado numa oportunidade. Terramotos, incêndios, aluviões – as catástrofes foram sempre ocasiões para as cidades se repensarem e, por vezes, mesmo, renascerem. Não foi o que aconteceu no Funchal. A incapacidade de compreender o que significa um boulevard marítimo, uma tipologia urbana oitocentista com características muito precisas – lá está, a ignorância da história da cidade e da sua arquitectura – levou a que se tivesse encarado a frente-mar como um problema de engenharia marítima e hidráulica, do qual fazia parte a criação de um novo cais de acostagem. Grossa asneira. Os resultados (e os tetrápodes) estão hoje à vista de todos.

Rui Campos Matos
Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Sul (Delegação da Madeira)

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