85 estudantes indicaram que já foram vítimas de algum tipo de assédio ou de violência na UMa

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Para Patrícia Martins Marcos, uma das autoras do manifesto "Todas Sabemos", o que foi notícias nos últimos dias "não é a excepção, é a norma". Em 2022, no Inquérito anual aos estudantes da UMa, com uma amostra de quase seis centenas de inquéritos válidos, 85 pessoas indicaram que já foram vítimas de algum tipo de assédio ou de violência na Universidade. Desde a criação do Portal do Denunciante, a UMa recebeu duas denúncias. Há muitas vítimas que continuam sem conseguir denunciar os seus agressores, sendo que apenas 6,2% dos estudantes que sofreram assédio ou violência reportaram a uma entidade.

As investigadoras Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Miye Nadya Tom publicaram “The walls spoke when no one else would: Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia” e, com a notícia sobre o artigo publicado pela Routledge, relançaram o debate sobre o assédio e a violência nas Instituições de Ensino Superior.

74,2% dos inquiridos na UMa deseja a redução ou fim das propinas

O OBSERVATÓRIO DA VIDA ESTUDANTIL revelou os resultados do INQUÉRITO SOBRE AS PREOCUPAÇÕES DOS ESTUDANTES PERSPETIVANDO AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS DE MARÇO DE 2024. A divulgação dos resultados continua com a apresentação das propostas escolhidas pelos inquiridos, estando a redução ou fim das propinas no topo.

Há vários dias, Boaventura Sousa Santos e Bruno Sena Martins, investigadores no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), têm sido alvo de notícias sobre suspeitas de casos de má conduta sexual e de abuso de poder.

Os “encobrimentos institucionais para proteger «Star Professors» que favorecem abusos de poder em relação a jovens investigadoras que dependem da aprovação académica desses indivíduos para construir suas carreiras” são analisados pelas três investigadoras no seu artigo, sendo apontados como um modo de funcionamento comum nas comunidades académicas.

Inês Ferreira Leite, professora na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, referiu, em declarações à SIC Notícias, que o descrito no artigo das investigadoras “é absolutamente factual e preciso na descrição do tipo de ambiente e da forma como funcionam as instituições académicas e as relações entre os professores mais velhos e os investigadores ou professores mais novos”. A investigadora destaca a necessidade sobre a “importância de haver um clima de tranquilidade, de igualdade, de igualdade de oportunidades, de verdadeira meritocracia que não existe no nosso meio académico”.

Sobre a sucessão no meio académico: “escolhem como seus sucessores, normalmente porque são pessoas mais apagadas, sem grande pensamento próprio e que vão repetir as opiniões desses professores mais velhos” – Inês Ferreira Leite

Susana Peralta, professora de Economia na Nova SBE, referiu, na sua crónica do Público, que a sua universidade “também não tem procedimentos para prevenir o assédio, nem para receber denúncias e dar-lhes o devido seguimento”.

Sexta-feira, a deputada estadual brasileira Bella Gonçalves colocou fim a anos de silêncio e tornou público episódios de assédio que sofreu em Coimbra, acusando o Boaventura Sousa Santos. Na época dos acontecimentos, a doutoranda não encontrou acolhimento e apoio para tratar das denúncias de assédio.

A ministra Élvira Fortunato recordou sábado, em Esposende, que “há uma série de entidades dentro das instituições que podem ajudar e receber todas essas denúncias”. Para a governante, que afirma que o ministério “ainda não recebeu qualquer denúncia”, “está de portas abertas para ajudar naquilo que for necessário”.

Na sequência da publicação do artigo das três investigadoras pela Routledge, a Direção e a Presidência do Conselho Científico do CES emitiram um comunicado a anunciar a criação de “uma comissão independente à qual caberá a identificação de eventuais falhas institucionais e a averiguação da ocorrência das eventuais condutas anti-éticas referidas naquele capítulo”.

Na UMa, em 2022, dos 591 estudantes inquiridos, 11,3%, ou seja 85 pessoas que aceitaram responder ao questionário, indicaram que foram vítimas de algum tipo de assédio ou de violência na Instituição.

“Entre a bafienta inexistência de instrumentos e a bafienta criação de instrumentos ineficazes só para fingir que se faz alguma coisa, fico com a primeira alternativa. Bafienta por bafienta, sempre é mais honesta” – Susana Peralta

Como noticiado pela ET AL., dos 85 inquiridos que indicaram as situações, 29 estudantes responderam terem sofrido de violência verbal, e cinco de violência física. Foram 19 estudantes que indicaram como vítimas de assédio moral, e 27 identificaram como de natureza sexual o assédio de que foram vítimas. Cinco alunos responderam terem sofrido de outro tipo de assédio ou violência.

Nos últimos dias, a instituição madeirense revelou que, desde o final de 2022, recebeu duas denúncias. No inquérito promovido em 2022 e respondido por quase seis centenas de estudantes, a ET AL. revelou que cerca de 10% respondeu “sim” à pergunta “Reportaste a situação a alguma entidade?”. Dos 85 estudantes, 52,3% não reportaram a situação por vergonha ou por desconhecimento, e outros 41,5% preferiram não dizer se chegaram reportar a alguém competente. Apenas 6,2% dos estudantes que sofreram assédio ou violência reportaram a uma entidade.

O Inquérito anual aos estudantes da Universidade da Madeira, na sua edição de 2021-2022, foi promovido pelo OBSERVATÓRIO DA VIDA ESTUDANTIL da ACADÉMICA DA MADEIRA, no período compreendido entre os dias 27 de abril e 2 de junho de 2022.

Luís Eduardo Nicolau
ET AL.
Com fotografia de Erwan Hesry.