À conversa com Rui Carita

À conversa, ao telefone…

Sim, sou eu… Bem, obrigado e aí? O quê?

Bem, diga-me isso de outra maneira que não estou a entender. Um texto para Janeiro, mas quem vai ler textos numa altura destas? Para que serve e com que função? Ora vamos lá a ver se nos entendemos: eu estou reformado e fora de uma série de coisas. Creio não ter nada a dizer de especial interesse. Dou aulas porque quase não sei fazer outra coisa, ou já não sei. Há uns anos ainda pintava, mas hoje quem quer ter quadros em casa? E o que é que eu ia agora dizer de novo? A pintura como eu a fazia perdeu o sentido. Eram aguarelas, essencialmente. Ficavam bem ao lado do telefone e em cima do aparador. Tinham vidro e estavam protegidas dos vícios dos pássaros e das moscas. Mas hoje os telefones já não são fixos e os aparadores já não têm nada em cima.

Sim, dou aulas enquanto tal for possível, me deixarem e me der gosto, prazer. É uma forma de estar vivo e sentir que tenho alguma coisa para fazer. Não me estou a ver agora, depois de velho, a ficar em casa para ver o que é o almoço. Também não me vejo a fazer um qualquer cruzeiro, para ver 25 ilhas em três semanas e mais cidades fantásticas e paisagens de sonho. Não há paciência. E de avião também não. Para depois fazer uns vídeos e obrigar os amigos a vê-los depois do jantar: Umas Férias de Sonho. Não, não é o meu género!

Conversar sobre o quê? As aulas? A falta de aproveitamento dos alunos, que em 30 inscritos só uma dúzia vêm às aulas e depois perguntam pelos exames de recurso? Claro que outros não. E é por isso que dou aulas, e é por isso que gosto do que faço, e me empenho, a sério e com força. Os nossos estudantes, de um modo geral, são um caso complexo de análise e o reflexo de uma série de contradições com que todos nos debatemos. Não deve ser, assim, por acaso, que devemos ser das universidades portuguesas com maior percentagem de estudantes com bolsa e, ao mesmo tempo, uma das maiores percentagens de viaturas particulares por aluno a circularem diariamente à volta da Universidade.

Sim, sim, eu sei. Há também os carros do Tecnopolo e há carros que entram e saem várias vezes no mesmo dia. E há os estudantes que vêm com o carro do tio e do primo, que está emigrado, e etc. Mas circula quase que o mesmo número de carros que o de estudantes. Claro que muitos estudantes andam por aí sem saber muito bem por onde andam. Andam pela Casa dos Segredos, que já não tem segredo nenhum; andam por uma qualquer telenovela, à espera do final em que casam e vivem felizes, até à próxima telenovela, onde mudam de nome e de cenário, mas não de cara nem de discurso. São os novos meios de comunicação, ou os velhos com outras tecnologias, pois que as coisas, nesse campo não mudaram.

As coisas mudaram? Mas claro que mudaram! Infelizmente existem pessoas que acham que nada vai mudar. Vão ficar à porta a falar com elas próprias, pois tudo mudou já. Mudaram os paradigmas, os instrumentos e os conceitos. Os europeus e os americanos é que ainda parecem acreditar que a situação se pode manter assim, mas o mundo mudou diametralmente com a globalização. Vamos ter de mudar o tipo de comportamento; o tipo de vida; o tipo de intervenção do Estado; etc. E não vai ser por acharmos que sim, mas por que a tal nos vão obrigar. O poder de decisão está a mudar rapidamente da Europa e dos Estados Unidos para a China e para a Índia. A maior parte das pessoas ainda não percebeu, ou tem fingido que não percebe, mas vai ser obrigada a perceber. A pouco e pouco foram-se vendendo os anéis e as pulseiras, e a seguir só há as mãos e os dedos para vender – e esses ninguém os compra, porque tudo aquilo que consumimos, mais ou menos escravizados, são as mãos deles que produzem. Ora acontece, que eles, progressivamente, têm consciência disso …

A globalização deslocou, ou deslocalizou, quase tudo num curto espaço de tempo de que quase nem nos apercebemos. Foi a produção, o capital e, em breve, será a tecnologia. A própria noção de espaço mudou radicalmente. Hoje fala-se directamente para todo o Mundo e ao mesmo tempo com diferentes interlocutores. Era uma coisa que não passava pela cabeça há poucos anos. Claro que nós ainda não mudámos. Assistimos a um atentado, quase que em directo, como com as Torres de Nova Iorque e isso afecta-nos. Mas a morte da velhinha do 3.º andar, com quem nos cruzámos ainda ontem nas escadas, ainda nos afecta mais. Até lhe conhecíamos o cheiro e deixamos ligada a televisão para ocorrer à porteira a saber o que aconteceu. É outra dimensão.

Como vamos fazer? Ah, não faço a mínima ideia. Aliás deixei de fazer planeamentos há mais de alguns meses. Digamos que o meu horizonte passou a não ultrapassar um semestre. Acho que os meus prazos de garantia e validade não vão além de 6 meses. Depois se verá. Até lá vamos sobrevivendo. Claro que tenho projectos, que tenho dois livros prontos: um na Madeira e outro nos Açores, mas não faço ideia se vão alguma vez sair. Irá sair no próximo ano a História da Arte dos Açores, que já está pronta, mas é uma obra de parceria com muito mais gente. Nos próximos dias vou voltar aos retábulos, em que tenho estado a trabalhar com um outro colega, o que vai ser essencialmente para justificar compromissos. Não acredito que venha a conhecer a impressão nos próximos tempos. Mas comprometi-me e vou cumprir. O resto depois se verá.

Não, não sou vidente, como a Maia. Sou historiador e isso também me leva a compreender que vamos resistir. Não a viver assim, que vamos ter de mudar, mas vamos resistir com certeza. Vai ser, pelo menos, um 2012 muito difícil, e também 2013 e, também muito provavelmente 2014. Mas vamos sobreviver como sempre sobrevivemos. Já tivemos o sonho da Índia, o sonho de Alcácer Kibir, o sonho do ouro do Brasil e sobrevivemos à realidade.

Na Madeira sobrevivemos mesmo depois dos ataques dos submarinos alemães ao porto do Funchal, em 1916 e 1917 ou da queda da bolsa de Nova Iorque, em 1929, que levou à falência de três bancos na Madeira e empurrou para a miséria milhares de pessoas que viviam das poupanças dos emigrantes ali depositadas. E sobrevivemos e por isso vamos sobreviver.

Sim, sim, mas vamos ter de mudar. De forma de estar e de viver, de tipo de governo e de pessoas, de todo uma série de instituições que não podem subsistir num novo quadro. Quais? Não faço ideia. Estou reformado e retirado disso e de muitas outras coisas. Que venha gente mais nova, com outras ideias e outras formas de actuação. Que falem verdade e que tenham ética, para que as respeitemos. Quando colocamos em causa a Justiça, quando duvidamos do que um Ministro diz num telejornal, a Democracia está profundamente doente. Como? Claro que é a situação em Portugal e já não é só a Pátria, é também a Europa e a Civilização Ocidental, que, democraticamente, está a ter dificuldades em se adaptar aos novos ventos da História.

Não, não, já disse que não adivinhava. Não, mesmo que adivinhasse não o faria. Nunca comprei uma cautela, nunca joguei no totobola ou noutra qualquer coisa dessas. Por princípio que entendo moral. Não jogo, nem sorte nem azar. Já imaginou ter levado uma vida inteira a proceder assim e agora proceder ao contrário?

Sim, sim, mesmo que pudesse ficar rico. Então agora depois de velho é que ia ficar rico? Já não vale a pena e ia ser uma grande dor de cabeça.

Rui Carita
Historiador e Docente da UMa

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