Baseada na estadia na Madeira de Andrew Picken (1815-1845), desenhador e litógrafo britânico, que procurava a recuperação para a sua debilitada saúde, MADEIRA ILUSTRADA tem uma nova edição pela Imprensa Académica, com os magníficos desenhos de Picken passados para litogravura de vários pontos de interesse e descrições da Ilha, da sua história e do seu povo.
A Imprensa Académica apresenta HISTÓRIA DA MADEIRA de Rui Carita
HISTÓRIA DA MADEIRA reúne os seis volumes já publicados, entre 2014 e 2020, pela Imprensa Académica, chancela editorial da Associação Académica da Universidade da Madeira. Resulta de anos de investigação do historiador Rui Carita sobre os seis séculos de ocupação portuguesa do arquipélago atlântico.
À conversa com… Carla Baptista
Com a concessão ao infante D. Henrique da prerrogativa de fundar igrejas e mosteiros—gozando do privilégio do Padroado quanto à escolha
Paulo Miguel Rodrigues, especialista em História Contemporânea e docente da Faculdade de Artes e Humanidades da UMa, realizou a análise da obra e escreveu o prefácio desta edição da IMPRENSA ACADÉMICA.
Tendo havido já três edições desta obra, duas em Portugal continental e uma na Madeira, em nenhuma existiu um estudo introdutório. Que importância tem o seu texto para os diversos públicos alcançados com esta nova edição?
Neste caso, até pela sua natureza, o estudo introdutório visa conduzir o leitor até ao texto, preparar a sua leitura e facilitar a sua compreensão. É um prolegómeno elucidativo, que desvenda apenas aquilo que se considera fundamental para o desenvolvimento posterior de uma leitura livre, mas informada e devidamente sustentada, que por isso permitirá também uma imersão mais profunda e acutilante na obra, enquanto um todo, contribuindo assim para a melhor compreensão do texto, do contexto e até da conjuntura, no tempo e no espaço. A importância reside, portanto, na intenção de despertar a curiosidade e, em simultâneo, acrescentar e promover um conhecimento que se deseja integral. E, claro, no interesse em salientar o relativo ineditismo da obra em si.
Em todas as edições, o nome de Andrew Picken sobressai e o de James Macaulay parece ficar um pouco esquecido. Fale-nos brevemente sobre estes dois homens e da participação de cada um nesta obra.
Pode considerar-se que a preponderância e o destaque dado a Picken resulte do facto de as suas ilustrações, as imagens que projectam, cativarem de imediato, de forma instintiva, pelas suas múltiplas qualidades, do cromático à natureza que nos revela. Pelo contrário, o texto e as notas de Macaulay exigem outra atenção e preparação. Não tem nada de estranho. Hoje continua a ser assim. Mas do que não se pode ter dúvidas é que o tremendo êxito da obra resultou da excelente simbiose ilustração/texto e do entendimento que deles resulta.
Picken era um desenhador e aguarelista muito talentoso, arte que associava à sua prática como litógrafo. Os pais estavam ligados às Artes e à escrita. Faleceu precocemente, com apenas 30 anos (1815-1845). Foram aliás os seus problemas de saúde que o trouxeram à Madeira.
Quanto a Macaulay (1917-1902), era à época um jovem licenciado em Medicina, pela prestigiada Universidade de Edimburgo, onde também estudaram vários madeirenses. Macaulay Já viajara por Espanha, Itália e França, uma prática muito comum – senão mesmo inevitável – à época entre aqueles que para além do exercício da sua profissão, também se dedicavam à investigação e ao aprofundamento dos estudos nas suas áreas de saber. A este respeito, aliás, durante todo o século XIX a Madeira foi, na Europa e no espaço Atlântico próximo europeu, como se sabe, uma zona de eleição – para a investigação terrestre e marítima – no vastíssimo quadro dos estudos sobre a Natureza e dos seus múltiplos elementos.
O que lhe parece ser o aspeto mais interessante na relação entre as imagens e os textos, tendo em conta o conhecimento da Madeira?
Creio, desde logo, que o grande interesse está exactamente na qualidade desse binómio. A complementaridade existente entre uma qualidade cromática inédita, associada às ilustrações, que são notáveis, que se enlaçam com um texto claro, que apesar de conter elementos técnicos, colocou a sua tónica na simplicidade da mensagem. Uma obra de síntese, que se pretende não só informativa sobre o espaço, mas também que funcione como auxiliar de viagem, quase roteiro, que na verdade funciona como guia, para o turista, de cariz terapêutico ou outro. E a este respeito, é também uma obra inovadora, que inaugura uma época, num género literário para o qual depois se vai tornar modelar.
Mesmo no final do seu prefácio, diz que esta edição poderia contribuir «até para a construção e consolidação do conceito de Madeirensidade». Pode explicar-nos um pouco melhor?
Não sendo este o espaço para extensas explicações (e tendo eu já vários textos sobre o tema), creio que a forma mais simples e directa será afirmar que o conceito de Madeirensidade é, antes de mais, a síntese do Ser Madeirense, da identidade insular madeirense, num só vocábulo. Algo que se deve entender, portanto, associado aos conceitos de identidade, de insularidade e até ao de Autonomia. Pode até fazer-se o paralelo com Portugalidade, Cabo-verdianidade ou Açorianidade.
Uma identidade madeirense que emerge – constrói e consolida – da correlação de múltiplos contributos, dados por diversas áreas disciplinares que têm como objecto comum o estudo, a investigação ou até o simples testemunho da realidade madeirense (da Filosofia à Economia, passando pela Política, Etnografia, pelos Estudos Artísticos e Literários, pela Linguística, Antropologia, Sociologia, História, Geografia ou Biologia), sem que existam elementos determinantes, mas através das quais se concorde quanto à existência de especificidades ou idiossincrasias.
No caso de Madeira Ilustrada, de Picken e Macaulay – assim como de outros géneros literários – o contributo está no registo de aspectos e características dessa identidade, da tomada de consciência das suas dimensões substantiva, distinta e diferenciadora, no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo, mostra-nos como devemos entender a Madeirensidade de uma forma heterogénea e dinâmica.
Ora, a obra de Picken e Macaulay, como tantas outras, obriga-nos a pensar a ilha – na sua condensação e delimitação – enquanto espaço fronteira, potenciado pela descontinuidade geográfica, marca de forma indelével o nosso micro-universo. Um micro-universo – destaque-se – que sendo dotado de mecanismos próprios de funcionamento, também só se percepciona como Ilha quando colocado em relação com os outros. Daí a importância dos vários géneros literários – assim como das reflexões que apresentam e daquelas que promovem – para a consubstanciação da Madeirensidade. Sabendo que esta deverá ser pensada – e isto não é de somenos – como uma diferenciação integradora ou inclusiva, ou seja: do Ser Madeirense em outras unidades mais abrangentes (portuguesa, europeia ou atlântica).
Entrevista conduzida por Timóteo Ferreira.
ET AL.
Com fotografia de Pedro Pessoa.