Praxe Académica

Os rituais de recepção dos alunos novos ao ensino superior são já tradições de longa data. A Praxe, do grego Praxis, numa das suas definições dicionarizadas, consiste num “conjunto de regras, costumes e práticas que governam as relações académicas entre alunos de uma instituição de ensino superior, baseado numa relação hierárquica”. Desde o seu início, este hábito tem vindo a provocar, tanto naqueles que nele participam, como naqueles que assistem, reacções diversas.

Até há algumas décadas, entrar na Universidade era notável. Num artigo de opinião publicado no Expresso, Daniel Oliveira refere que só este feito bastaria para que um indivíduo passasse a ser ‘senhor doutor’, sem que tal reflectisse qualquer mérito académico.

Com o passar do tempo, entrar na Faculdade tornou-se mais habitual. A maior abertura do ensino superior deve-se ao estabelecimento de oportunidades às quais os nossos antepassados não tiveram acesso, tais como bolsas de estudo e outros géneros de apoio social. Este processo provocou também uma mudança do papel social do próprio ensino superior, que deixa se tornar cada vez menos elitista ou exclusivo, para se aproximar no nível de escolaridade mínimo exigido ao cidadão do futuro.

É aqui que a praxe entra – tenta atribuir novamente esse significado àquela que é uma das etapas mais importantes da vida de um estudante. A praxe tem como missão, acima de tudo, inserir os novos alunos neste grande meio que é o ensino superior. Porém, se o ensino superior se parece querer para a democratização do conhecimento, qual será o espaço de uma tradição que se baseia numa hierarquia estabelecida, como a Praxe?

Haverá risco de, na procura pela união dos estudantes, recorrer-se a uma obediência cega por intimidação, ameaças e humilhações consentidas? Valerá a opinião de um estudante “caloiro” tanto quanto a de um estudante mais velho?

O Código de Praxe da UMa declara, no seu artigo n.º 39: “O praxista não deve (…) sobrestimar-se”. Já o seu artigo n.º 42 diz: “Os caloiros podem recusar fazer determinada atividade no âmbito da PRAXE a que aderiram.” À primeira vista, estes e outros artigos do documento pretendem estabelecer limites à acção dos praxistas, valorizando a opinião dos caloiros, evitando que sejam forçados a fazerem coisas com as quais não se sentem confortáveis, como a imitação de actos sexuais, estarem em posições incómodas, entre outros. Serão esses artigos lidos, entendidos e assimilados num verdadeiro espírito de camaradagem ou conforme a vontade de cada um?

Cada qual tem que fazer a sua análise e perceber o que pretende com a Praxe, sabendo que a sua liberdade não é a única que está em jogo.

Pessoalmente, apesar de criticar a Praxe, a minha experiência não foi de todo tão má. Creio que a Praxe ajuda na inserção dos recém-chegados, apesar das confusões que pode haver pelo caminho. Tive momentos difíceis, mas também tenho muitas boas memórias dos dias em que, fritos pelo sol, andámos a correr de um lado para o outro, ou da marcha, da bênção, dos risos. Ainda tenho nódoas negras nos joelhos esfolados pelo chão crespo. Tal como a farinha e o molho no cabelo passaram com água e detergente (sim, o de loiça), a dor dos joelhos também passou. Mas ficaram as memórias.

Acredito não ser a única a pensar que a Praxe tem aspectos bons e maus. Não creio que a eliminação desta tradição seja a acção mais correcta a tomar, mas sim a alteração maneira como é feita e o controlo daqueles que a fazem. Qualquer um pode vestir o traje, mas nem todos são praxistas de verdade. Podes querer fugir ou podes ter saudades. A verdade é que, ao fim do dia, a Praxe deixa sempre marcas.

Liseta Pereira
Estudante da UMa

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