À conversa com Luísa Soares

Faço parte daquela pequena percentagem de professores da Universidade da Madeira que são os nativos da ilha. Que um dia saíram e outro dia decidiram voltar. Para mim olhar o horizonte desde criança não foi limitador. Pelo contrário, foi o princípio de uma pequena grande descoberta. Como nativa desta ilha maravilhosa e como retornada depois de uma longa temporada no Porto e em Barcelona, voltei às origens, e reparei que o mundo regional mudou… Existe uma Universidade nova, com um leque diversificado de professores, regionais, nacionais e estrangeiros, os jovens podem escolher um leque variado de percursos de formação. Em 1992, quando saí, não era assim… Agora é e ainda bem. No momento atual é preciso atrair os jovens do continente e do estrangeiro e fazer o processo ao contrário. Recebê-los, formá-los, integrá-los e deixá-los escolher: ficar ou voltar. Como um dia nos receberam. O mundo precisa de descobrir a Universidade da Madeira. Não cabemos todos no mesmo sítio, mas os diferentes e as diferenças serão bem-vindas.

Gosto muito de trabalhar com os jovens desta ilha e não só me dá muito prazer ensinar–lhes conteúdos, mas também formá-los no verdadeiro sentido da palavra F-O-R-M-A-R. Na 6.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, (sim é verdade, ainda me dá muito gosto consultar um grande dicionário de papel, em vez de ir ao Google), o significado é “dar forma a; organizar; constituir, armar; compor, imaginar; (…) descrever; imprimir qualidades; desenvolver-se; tomar forma (…). É isso que gosto de fazer. Formá-los para descobrirem eles próprios mais conteúdos que lhes permitirão ver o mundo de uma forma melhor. Gostaria que a nossa cultura incentivasse mais os jovens a saírem de casa dos pais e a fazer os estudos também fora da ilha, depois de passarem pela UMa. A formação hoje em dia não termina no 2.º Ciclo. Costumo dizer aos meus alunos “vão, mas voltem”. Preciso que me ajudem a ensinar às novas gerações que o horizonte não é o fim. É o princípio de uma pequena grande descoberta. Mais orgulho tenho naqueles madeirenses que vejo terem nascido cá, com gerações anteriores igualmente nascidas cá e conseguem quebrar o ciclo cultural e familiar e vão… perdem o medo de passar o horizonte que todos os dias vemos onde quer que estejamos na ilha. O amor e a amizade também são isso mesmo, tal como diz Mário Quintana, não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam, porque quando se torna em nó, já deixou de ser um laço!

Não há sítio melhor para viver do que aqui. É único no mundo: demorar o tempo de uma música no rádio do carro a chegar ao trabalho. Depois de experimentar as horas de trânsito na via de cintura interna e a via norte do Porto, a CREL em Lisboa, ricos momentos de chegada ao trabalho….Por isso vão, mas voltem… a via rápida é tão mais agradável de se percorrer…

A cultura madeirense incentiva muito as mulheres a estudarem na ilha. No meu tempo de decidir ficar ou ir para o continente e continuar os estudos a nível superior, estudar línguas, ser professora de inglês, ser guia turística era o mais incentivado, pelo menos na minha família. Assim não precisas de sair, ficas por aqui perto de nós. Cuidas dos pais quando forem velhinhos…. Não tinha queda para as línguas. Gostava de ouvir histórias. Gostava de ouvir os outros e fui aprender a ser psicóloga, ao contrário da expectativa familiar.

Quando se experimenta a saída, a culpa pode ser avassaladora e quase inibidora de uma boa integração no mundo fora da madeira. Os madeirenses quando saem, tendem a juntar-se uns com os outros, em vez de procurarem fazer amigos de outras regiões do país. Isso diminui a sensação de isolamento que por vezes se sente. Conhecer pessoas de trás os montes, do Algarve, de Lisboa, do Porto, do entroncamento facilita a integração. Os sotaques são diferentes e isso é desde logo um bom desbloqueador de conversa, para os jovens mais tímidos. Os contextos das residências universitárias facilitam este intercâmbio de regiões e são muito ricos para o treino de competências sociais e no fortalecimento de laços sociais entre os jovens. Eu tive a sorte de experimentar a vivência de estudante numa residência universitária e foi uma experiência única, cheia de aventuras, de aprendizagens de criação de laços de amizade extraordinários.

Na rua seguinte à minha residência universitária no Porto, havia uma outra residência universitária masculina. Nesta altura de estudante, em que nossa mente é maioritariamente comandada pelas hormonas, lembro-me que o meu namorado, membro da tal residência universitária masculina, fez-me uma declaração de amor em serenata a tocar viola, pela noite dentro e com todos os colegas da residência masculina em coro debaixo da minha varanda. Amei-o para sempre. Penso que só temos coragem para fazer isso aos 20 e poucos anos…

Como dizia Carl Rogers “Um dia percebemos que não se pode prender pássaros nem corações e que, estar junto, não é estar ao lado, mas sim do lado de dentro.” Por isso vão em paz, aventurem-se no mundo fora daqui, porque estarão sempre do lado de dentro.

Luísa Soares
Professora Auxiliar do CCAH
Directora de Curso de Psicologia 1.º Ciclo

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