“No livro O LEVADEIRO conto uma história de outra pessoa, não a minha”

“No livro O LEVADEIRO conto uma história de outra pessoa, não a minha”

Rafaela Rodrigues depois de O PESCADOR e de A BORDADEIRA, leva-nos ao interior da Laurissilva, onde trabalha O LEVADEIRO e dá-nos a conhecer esta profissão que marcou a sua infância.

Criadas para assegurar a rega por alagamento dos campos de cana-de-açúcar, ainda no século XV, as levadas da Madeira há quase 600 anos asseguram a circulação das águas. No século XXI, são candidatas a Património Cultural da Humanidade pela UNESCO. Vindas das nascentes, rasgam a floresta Laurissilva da Madeira, Património Natural da Humanidade, passam altas montanhas e descem até aos poios, matando a sede às hortas, aos pomares, às vinhas, aos canaviais-de-açúcar e aos extensos bananais.

Rafaela Rodrigues mostra-nos quem é O LEVADEIRO, que mantém a levada a correr, limpa e segura. Este é o novo volume da sua coleção infantil sobre as profissões tradicionais da Madeira, editada pela Cadmus.

Na sua página pessoal, a Rafaela apresenta-se como «ilustradora e overthinker». Se muito pensa, logo ilustra? A ilustração é para si um prolongamento do pensar e do ver, já que também afirma que se inspira nas coisas que vê diariamente?

O overthinking funciona como um motor para a imaginação e criação das ilustrações e histórias. Por vezes, penso muito e não consigo decidir qual das ideias devo ou quero finalizar e demoro um pouco a decidir como será a imagem final. Tento pôr mais ideias em prática do que apenas pensar nelas. Tenho listas de “to do” e de ideias no bloco de notas e vou revisitando conforme.

As coisas que vejo diariamente, são, por vezes, inspiração direta para algumas ilustrações. Outras, são pura imaginação. Por exemplo, não vejo baleias, lamas e unicórnios, no entanto já as desenhei muitas vezes.

Os meus projetos são diferentes uns dos outros. Desde os projetos de livros onde, normalmente, faço ilustrações, que são baseadas ou inspiradas em histórias, paisagens, edifícios reais, como em O Pescador, A Bordadeira e O Levadeiro, onde represento o que me rodeia e misturo a imaginação e a realidade, às encomendas para clientes específicos, onde tenho de retratar especificidades técnicas, como a quantidade “certa” de dentes ou as ruas de uma cidade, até aos retratos, onde ilustro, à minha maneira, pessoas reais, e, por fim, tenho os projetos autorais que podem ser um bocadinho de tudo.

E a escrita e o escrever? Quando e como começou a sentir a necessidade de enveredar pela linguagem escrita para complementar a sua linguagem pictórica?

Quando ilustrei O Pescador, pensei numa narrativa sobre um homem que passa muito tempo no mar. Construí esta história, inspirada em conversas com o meu avô que falava muito sobre o mar e sobre a sua profissão.

Inicialmente, a história só tinha imagens, mas tinha frases e apontamentos sobre cada ilustração e sobre o que cada ilustração queria dizer, as suas intenções.
Acabei por escrever o texto para o livro porque queria uma narrativa simples para servir como âncora para as ilustrações.

Nas suas publicações com a CADMUS – A Bordadeira, O Pescador, e, agora, O Levadeiro – vê, pensa e ilustra profissões tradicionais da Madeira, hoje já pouco visíveis ou pouco pensadas. Se O Pescador tem relação direta com um familiar, o seu pai, há relações semelhantes com os outros títulos?

No caso do livro A Bordadeira, sim, no caso do livro O Levadeiro, não. O livro A Bordadeira conta uma história inspirada na minha mãe, tias, avós e vizinhas. A minha mãe só foi bordadeira por um bocadinho, mas as outras senhoras eram especialistas em certos pontos e foram bordadeiras até deixarem de o ser. As linhas, as folhas de papel vegetal, o anil, os tecidos fazem parte da minha infância e da minha memória. Brinquei no quintal com cântaros de sapatinhos, com linhas, botões e dedais, tudo à mistura.

Cresci ao lado de uma regadeira, entre poios de bananeiras e canas-de-açúcar. O Levadeiro é uma profissão que esteve sempre presente e trazia sempre alegria. Quando o “sr. Levadeiro” vinha, a água vinha com ele, e com a água vinham, por vezes, eirós e iam barquinhos de papel e um sapato ou outro, que o meu irmão achava piada em ir lá deixar. Mais tarde, íamos buscá-los mais à frente onde havia uma grade que filtrava a água.

Ao contrário do pescador e da bordadeira, no livro O Levadeiro conto uma história de outra pessoa, não a minha, nem da minha memória familiar.

A profissão de levadeiro parece, atualmente, bastante mais invisível do que as outras. Só uma pequena parte da população nota a sua presença, sobretudo quando falta a água de giro, porque, para a maioria, a água flui nas torneiras e cada vez há menos poços e mais piscinas. O Levadeiro é uma homenagem ou uma nostalgia?

A profissão de levadeiro é invisível, dependendo do lugar. No mundo rural é uma profissão muito pouco invisível. Na “cidade”, mais do que invisível, é uma profissão esquecida.

O Levadeiro é homenagem, é nostalgia, mas também tem uma componente educativa sobre a profissão. O levadeiro não trata só da água, trata das levadas, trata da esplanada das levadas e faz com que possamos simplesmente abrir uma torneira para a ter.

A cultura madeirense é muito marcada, ou demasiadamente marcada, pela ênfase no heritage. A sua próxima obra pela CADMUS é, também, sobre uma profissão antiga. Como vê a relação entre herança e tradição, criatividade e inovação?

Os três livros, felizmente, retratam profissões que ainda existem na Madeira, em menor expressão, mas persistem.

O levadeiro é a profissão que mais evoluiu e beneficiou de inovação. O levadeiro passa menos tempo na levada, apesar da responsabilidade na divisão das águas se manter a mesma. Esta profissão e a evolução da tecnologia permitem que os canais de água sejam utilizados para gerar energia elétrica.

Os pescadores, apesar de utilizarem sistemas de monitorização modernos, na prática, a pesca continua a ser feita de forma tradicional e os pescadores continuam a ter de passar dias, semanas ou meses fora de casa.

O bordado Madeira é, das três profissões, o mais minucioso e que requer mais dedicação para aperfeiçoamento da técnica. É também o mais repetitivo e o único que envolve criatividade artística, não por parte da bordadeira, mas do desenhador que define os desenhos.

A coleção da CADMUS não é sobre profissões em vias de extinção, nem sobre profissões extintas, é sobre profissões típicas da Madeira, típicas da cultura da Madeira e da sua identidade.

A cultura madeirense é marcada pelo heritage, pois somos uma região com muita história e cultura não partilhada com mais ninguém, sempre fomos um rochedo no meio do Atlântico, com uma orografia única. Obviamente, que as levadas e os levadeiros são nossos, pelo que é fácil ser marcadamente madeirense.

A apresentação foi realizada em outubro, em Machico, estando o livro já se encontra disponível nos principais livreiros a operar no país.

Entrevista realizada por Timóteo Ferreira.
ET AL.