Se um grupo de dez diplomados portugueses se reunir para jantar, é muito provável que pelo menos um deles esteja a trabalhar num emprego que não requer a sua qualificação. Segundo dados divulgados pelo Eurostat, “16% dos diplomados portugueses entre os 20 e os 64 anos são sobrequalificados”, ou seja, exercem profissões que não exigem formação superior. Ainda assim, esta percentagem está abaixo da média da União Europeia (21,4%), o que não impede que continue a ser um sintoma preocupante de ineficiência no mercado de trabalho.
Este fenómeno é particularmente evidente entre os jovens. Na faixa etária entre os 20 e os 34 anos, 20,3% dos diplomados portugueses enfrentam esta realidade. “A sobrequalificação é mais visível nos recém-chegados ao mercado de trabalho”, lê-se no Público, sublinhando a dificuldade que muitos jovens enfrentam ao tentar encontrar emprego à altura da sua formação. Apesar de Portugal se situar ligeiramente abaixo da média europeia (22,9%), a situação continua a revelar um desajuste persistente entre o sistema educativo e as necessidades do tecido empresarial.
O problema é acentuado por um contexto económico pouco dinâmico. Um estudo do ISCTE citado pelo Público lembra que “a qualificação generalizada da mão-de-obra resultou numa discrepância entre a qualificação do trabalhador e a qualificação do emprego”, sobretudo nos países do sul da Europa, onde a “fraca capacidade do tecido produtivo” impede a absorção de quadros qualificados. As políticas de austeridade e os cortes no sector público agravaram o quadro, reduzindo ainda mais as oportunidades para diplomados.
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As desigualdades de género também se fazem sentir: em Portugal, “18,1% das mulheres com educação superior ocupam posições abaixo das suas qualificações”, contra 12,8% dos homens. O padrão repete-se em grande parte da UE, embora com variações significativas. Em 21 dos 27 países, as mulheres estão mais expostas à sobrequalificação, revelando como as assimetrias de género continuam a limitar o pleno aproveitamento do capital humano.
Comparando com outros países, Portugal surge a meio da tabela. Enquanto na vizinha Espanha o problema afecta 35% dos diplomados, países como o Luxemburgo (4,7%) ou a Croácia (12,6%) apresentam taxas muito mais reduzidas. Isto sugere que o grau de sobrequalificação está fortemente correlacionado com o tipo de economia e o investimento em sectores de valor acrescentado.
A conclusão do artigo do Público é clara: “o investimento em educação é apenas parte da solução”. Para evitar o desperdício de qualificações, é necessário complementar a aposta educativa com políticas industriais que valorizem e integrem os diplomados em sectores exigentes e inovadores. Só assim se poderá transformar o conhecimento em desenvolvimento económico e progresso social.
Carlos Diogo Pereira
ET AL.
Com fotografia de Diana Quintela.


